Capítulo I
Tudo muito bem tudo muito bonito. Os primeiros dois dias correm bem, ao terceiro dia apresentam-nos as directoras dos centros (os tais que começam por Wall e terminam em Street) que se sentam à nossa frente e dizem vá, toca a simular apresentações para nós vermos, e nós os sete, os formandos, trememos por dentro porque é tudo muito novo e achamos que ainda não estamos preparados para aquela pressão toda, mas lá passamos um dia inteiro a simular apresentações. Corre melhor a uns que a outros, como é normal. Ao longo do dia vamos vendo quem não tem mesmo jeitinho nenhum para aquilo e que, obviamente, terá de ficar para trás.
No quarto dia é mais do mesmo: mais apresentações que ontem as directoras não gostaram de nenhum de vocês. No quinto dia, duas pessoas foram escolhidas para ficar a trabalhar e uma foi mandada para casa. Restavam quatro. Eu e mais três. Estávamos nervosíssimos porque tínhamos chegado ao último dia de formação e ainda não sabíamos se passávamos ou não. Vamos fazer uma coisa que nunca fazemos. Vamos estender a formação até segunda-feira para vos dar a oportunidade de mostrarem o que valem, visto que as vossas apresentações têm sido inconstantes, ou muito más ou muito boas.
Passa-se o fim-de-semana e na segunda-feira lá estamos nós. Dois homens com imensa experiência na área comercial e duas mulheres, uma com alguma experiência na área comercial e eu, a mais novinha do grupo, sem experiência em coisa nenhuma relacionada com aquele trabalho. Um dos senhores desistiu mal lá pôs os pés e o outro desistiu lá mais para o fim do dia. Restávamos eu e a minha colega de formação, que entretanto já se tornou amiga. Mais uma ronda de apresentações...
Vamos ser muito sinceros, vocês desiludiram-nos imenso, esperávamos muito mais de vocês depois de algumas apresentações bastante fortes que fizeram. Isto hoje não vos correu nada bem. A solução mais fácil seria mandar-vos às duas embora, mas vamos arriscar e dar-vos uma oportunidade. Vão começar a trabalhar amanhã e ficam um mês à experiência. Entreolhámo-nos e, a medo, lá aceitámos a proposta.
Capítulo II
Na terça começámos então a trabalhar. Eu num centro e a outra sobrevivente noutro. O nervoso miudinho estava lá mas, com o passar do dia, lá se foi dissipando. No espaço de 2h apercebi-me que há muito mais coisas que se fazem naquela função, coisas das quais ninguém nos falou na formação e que temos um mês para assimilar.
Observei o trabalho das outras assessoras que lá me iam dando umas dicas para convencer os alunos a assinarem um contrato de dois mil e tal euros, enquanto iam rematando que este trabalho não é aconselhável a cardíacos. Há aqui meses em que eu tenho de andar a calmantes porque isto de trabalhar na área comercial é muito inconstante. Temos de trabalhar por objectivos, o nosso ordenado e o nosso futuro na empresa depende dos objectivos alcançados. Eu lá ouvia e engolia em seco, que calmantes quero-os bem longe de mim.
Ao longo dos primeiros dois dias o que mais ouvi (enquanto continuava a fazer as tais simulações de apresentações para ir treinando, para quando fosse fazer uma a sério já me sair tudo direitinho) foi: Tu tens de usar duas coisas a teu favor que nunca usas! Uma é a tua figura. Tu tens uma cara querida, as pessoas quando te vêem param e ficam à espera de te ouvir falar, e é raro termos esse poder sobre as pessoas. A outra coisa é o teu sorriso. Quando sorris desarmas a pessoa que tens à tua frente, ficas completamente diferente quando sorris e é assim que tens de criar empatia com as pessoas. Quando fazes as apresentações simuladas ficas tão tensa e com uma cara tão séria que parece que vais despedir alguém. Sim disseram-me isto vezes sem conta. Para além de ter de saber, no espaço de uma semana e pouco, todo o funcionamento e manhas daquela casa ainda tinha de debitar tudo com um sorriso.
No terceiro dia lá me puseram com um aluno a fazer uma apresentação real. Fiz tudo direitinho, fartei-me de sorrir até fiz umas piadas. Mas o moço acabou por não assinar coisa nenhuma porque afinal nem sequer morava ali ao pé e só queria mesmo fazer os 15 dias grátis. Parece que o sorriso não chega para pôr as pessoas a desembolsar 89€ por mês.
Capítulo III
Chegamos então ao quarto dia. Hoje.
Estou a gostar bastante de te ver. Estás mais solta, mais desinibida, sorris mais, mantens contacto visual e crias empatia que é isso que se quer. O próximo aluno que entrar é teu, fazes tu a apresentação. E eu toda contente, claro está. Ao fim de quatro dias já tinha evoluído e até já sorria, tão linda que eu sou que até consigo sorrir. Fui almoçar, toda satisfeita porque agora era uma pessoa que criava empatia, e quando vim do almoço a directora do centro disse que queria falar comigo.
Pois, tu não tens o perfil indicado para este trabalho.
(Silêncio pesado. Ouve-se o barulho do vento lá fora e cá dentro a resistência das lâmpadas, enquanto na minha mente soou um estridente OI?!)
Tu és uma pessoa esforçada, muito simpática e que aprende rápido, mas não estás a evoluir ao ritmo que nós queremos. Nós realmente já vos tínhamos dito que neste mês à experiência iriam ter de aprender tudo muito rápido e nós vemos que não o estão a fazer. Para além disso mostras uma grande indefinição quando te perguntamos se é mesmo isto que queres fazer da tua vida e tu dizes que não sabes.
Pois... como já respondi das outras 47 vezes que me perguntaram isso num espaço de quatro dias: eu saí da faculdade há seis meses. Nunca fiz isto, nunca trabalhei na área comercial por isso não posso dizer que não me imagino a desempenhar esta função nem que sim senhor que é isto que eu quero fazer até bater a bota. Se nunca passei por esta realidade a única resposta que posso dar é a verdade e a verdade é que não sei e não é num espaço de 4 dias que vou passar a saber.
Pronto, mas o melhor é não prolongarmos mais isto. Na próxima semana passas cá para vires buscar o teu ordenado destes quatro dias. Entretanto podes arrumar as tuas coisas e ir embora, não faz sentido ficares cá até ao fim do dia. De qualquer forma nós pagamos-te o dia de hoje todo.
Fim.
Agora vamos lá ser racionais e falar como gente grande: MAS VOCÊS ACHAM ISTO NORMAL?! Então uma pessoa antes de almoço é uma linda que sorri e cria empatia e está a evoluir a olhos vistos, qual rebento a dar os primeiros passos, e três horas depois já não tem o perfil indicado? Mas que rebaldaria vem a ser esta?
Primeiro espezinham-nos e dizem que não valemos nada e que não dão nada por nós para aquelas funções, mas depois dão-nos uma oportunidade, tipo esmola, e ao fim de quatro dias dão-nos um pontapé no traseiro. Sim estou a falar no plural porque com a outra rapariga que passou comigo fizeram o mesmo. De sete pessoas ficaram duas e uma delas nem sequer sabe quando começa. Portanto, na prática, acabou por ficar apenas uma!
O choque foi tão grande, mas tão grande, que eu nem tive tempo de ficar triste. Esta conversa e todo o processo de selecção para este lugar foi tão estúpido e sem o mínimo cabimento que ainda agora estou a tentar perceber o que é que aconteceu exactamente; o porquê de, de repente, ter deixado de servir para o papel.
Um mês de experiência, disseram eles, para vermos o que vocês valem. Como é que ao fim de três dias e um quarto chegam à conclusão que não servimos? Melhor (ou pior, depende do ponto de vista) como é que de manhã somos uns lindos e à tarde correm connosco assim daquela maneira? Esta foi inédita. Pela primeira vez fui despedida e sem razão absolutamente nenhuma. Deixa cá ver para que lado está o vento. Está para Este, então é melhor pôr a novata a andar que ela não dá para isto.
Se até aqui houve um dia ou outro em que me queixei que desde que tinha saído da faculdade ainda não tinha tido férias e ainda não tinha conseguido descansar, agora isso não vai ser problema.



